sobre a autora

Ana Esterque

Suportar-se na solidão

Ana tem aparência delicada. Vi-a, primeiro, por fotos: os olhos cor de mel chamam a atenção em contraste com os cabelos escuros; mas foi essa imagem, em que seu olhar mostra-se nítido, que me chamou mais a atenção. É como se no exato momento do clique todas as lembranças de sua vida viessem à tona e o saldo final fosse a satisfação de contar histórias.

A longa entrevista que fizemos com ela não deram conta de definir de onde chegam tantas narrativas: muito trabalho, solidão, fragmentos de acontecimentos – reais ou não, pessoas imaginadas ou que simplesmente cruzaram por segundos o seu caminho. Ana escreve histórias, mas o que a faz escrever não dá muito para ser descrito. “As palavras, muitas vezes, são insuficientes!”, aceita a autora.

Quando Ana era menina, vivia numa casa com um terreno onde havia uma grande horta. Ela ajudava o avô, cuidando das hortaliças, pés de mandioca e plantação de abóboras. Toda vez que avô pedia para Ana ir até as abóboras, ela estremecia. As grandes folhas cobriam o terreno e não a deixavam ver o chão. Sentia as folhas roçando em suas pernas sem saber ao certo onde pisava. A única certeza dele – o chão – estar ali, logo abaixo de seus pés em chinelos ou galochas, era a firmeza sentida no caminhar.

O avô de Ana nunca soube do medo da menina, pois ela não saberia explicar-se sem parecer tola. O que Ana temia não eram as abóboras, mas o fato de não enxergar o chão por baixo das folhas largas.

Essa história de sua infância é apenas uma metáfora do que se seguiu pela vida. Quando criança, cercada de afeto, seu maior receio era o de não ver o solo de sustento da horta. Na mesma época, pelos dedos da irmã mais velha ao piano, encontrou-se com a música clássica. Antes mesmo das letras, aprendeu as notas, quando sequer alcançava o pedal do instrumento: os pés balançavam longe alguns centímetros do chão. Fragmentos de sua biografia, ditos quase em tom de confissão.

Pelo caminho, mais tarde, constatou que muitas outras vezes não veria o chão e, ainda assim, cruzaria plantações. “Talvez o nome disso seja fé”, anuncia. “Essa coragem inexplicável que nos toma quando o solo parece inexistir e, ainda assim, optamos por caminhar”, conclui Ana.

Aliás, para Ana, escrever também é um ato de fé e coragem, com muito trabalho, repetição, disciplina, pesquisa. Coragem de se suportar durante a solidão da criação e da escrita. “Escrever é também se suportar em meio à solidão. Isso, às vezes, dói”, complementa.

Talvez por isso tamanha identificação com os companheiros de trajetória: homens e mulheres com os quais se encontrou, muito cedo, nas páginas lidas entre brincadeiras, aulas de piano e o cuidado com a horta da família. Dos muitos livros de sua infância, Ana folheou e leu muitos.

Ainda menina, leu Milan Kundera, gostou, mas não entendeu. Leu José Mauro de Vasconcelos e, aí sim, encantou-se com Meu pé de laranja lima. Leu livros técnicos sobre peixes porque a família tinha um aquário. Leu de tudo, entender é outro papo.

Depois deles, já com maturidade, encontrou-se com Machado de Assis, Dostoiévski, Herman Hesse, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Gabriel García Márquez, Mário Quintana, Marina Colasanti, Eça de Queiróz, Drummond, Sartre, entre tantos outros. Cada um desses encontros marcou-a de um jeito, influenciando o seu modo de ver a vida e, consequentemente, sua escrita.

Outros encontros a marcaram, não sem antes uma incessante busca de se encontrar. Busca que segue pela vida. Procurou-se quando cursou Jornalismo e, trabalhando na área, entendeu que a verdade que buscava era a verdade de si mesma. Procurou-se quando a ruptura de um aneurisma cerebral lhe impôs uma vida com mais pausas, paciência e dor. Procurou-se quando viveu em Santiago de Compostela, estudando Filosofia, escrevendo e simplesmente vivenciando o prazer de ser estrangeira. E em cada procura, encontrou-se. Encontros que compõem a história de Ana Esterque e que dão corpo a sua literatura.

A autora gosta e precisa de rotina para trabalhar. Escreve à mão (lápis, prancheta, borracha) e no computador, rodeada de livros de referência, além de diversos estilos de música. Gosta de gramática, estilística, linguística e, vez por outra, busca as opiniões técnicas de sua revisora. Faz diversas pausas ao longo do dia para descansar a visão oscilante e a dor nos olhos. Equilibra a criação e a escrita com uma rotina doméstica e bem comum.

Ana Esterque segue pelas plantações que não a deixam ver o chão que se apresentam na trajetória da vida e nas histórias que escreve. Conta-nos que, para ela, o mais importante da vida é poder terminar o dia sabendo exatamente quem se é, com toda luz e sombra que existe dentro de si. Ana terminou a entrevista assim: “É sempre bom ter os olhos abertos para não se perder de quem se é, mesmo que isso doa”… Mesmo que não se veja o chão por debaixo das folhas de abóbora.

obras

livro


O amor não presta para nada!

Textos curtos, ágeis, dinâmicos e de gêneros distintos. Neste livro, a autora nos proporciona, por meio de histórias, reflexões sobre a vida, os relacionamentos e os sentimentos mais diversos.
Por fim, só podemos chegar à conclusão de que o amor serve realmente para tudo.

Lançamento previsto: Início de 2017 (Brasil), pela Editora Letramento.
Em breve, mais informações.

a-fila


A Fila

A alma guarda segredos, anseios, dores, expectativas. Em A fila (contos), Ana Esterque presenteia-nos com uma sucessão de dez narrativas que demonstram a sua visão sobre as condições mais diversas do humano.
Escrito em três cidades – Santiago de Compostela, Zurique e São Paulo – este livro, de estilo aberto e permeado de sutilezas linguísticas, convida-nos a sentir e refletir sobre o vazio, a aspereza e a delicadeza da vida e da alma.

Lançamento: Agosto/2016 (Brasil e Portugal), pela Chiado Editora.


Conforme a Lei 9.610/98, é proibida a reprodução total e parcial ou divulgação comercial sem a autorização prévia e expressa da autora (artigo 29). Todos os direitos reservados.

projetos



Produção literária
Atualmente, Ana está engajada na escritura de um romance e de um livro de cartas. Ambos ainda em segredo.

Consultoria
A autora oferece serviços de consultoria textual e redação de textos a empresas e pessoas físicas. A astróloga Eunice Ferrari é uma de suas clientes. Outros projetos estão em fase de elaboração que, em breve, serão revelados.

contato

Fale com a autora

Imprensa

Assessoria de Imprensa
Lilian Comunica – Assessoria de Imprensa e Editorial
contato@liliancomunica.com.br
(11) 2275-6787